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A morte de Henrique VIII

Na sexta-feira, 28 de janeiro de 1547, o homem que tinha iniciado o seu reinado como um ‘príncipe virtuoso’ morreu em Whitehall Palace. Ele tinha 55 anos.

No dia anterior a sua morte Henrique viu seu confessor e recebeu a Sagrada Comunhão. Embora a morte fosse, obviamente, iminente, nem mesmo os médicos tiveram coragem de dar a notícia ao rei. Era traição prever a morte do rei.

A segunda metade do reino de Henrique VIII foi manchado com as execuções de suas esposas, parentes, amigos íntimos e confidentes. Embora o número exato de pessoas que foram executadas por ordem de Henrique VIII seja desconhecido e as estimativas variam amplamente, alguns sugerem que o total poderia ter sido tão alto quanto 72.000.

Anthony Denny perguntou se o rei não queria nenhum ‘homem culto’ para conversar, e o rei respondeu que ‘se tiver algum, deve ser o Dr. Cranmer, mas primeiro eu vou dormir um pouco, e então, dependendo como me sentir eu irei lhe informar“. Cranmer levou horas para chegar, devido as estradas congeladas. Ele chegou pouco depois da meia noite, Henrique VIII estava quase inconsciente e incapaz de falar. Cranmer insistiu que, quando ele pediu um sinal de que seu monarca confiava na misericórdia de Cristo, Henrique apertou sua mão. Foi uma partida cristã: nada de unção, leituras em latim: só um simples reconhecimento do trabalho de Cristo.

Henry VIII and His Six Wives (1972)A obscuridade cerca o seu verdadeiro leito de morte. Nos seus últimos dias, só membros do Conselho Privado e os cavaleiros da Casa Real tinham tido permissão para vê-lo. Fora Cranmer e Anthony Denny, não sabemos quem mais estava presente – exceto a rainha que não se encontrava (diferente da maioria dos filmes) – nem, de fato, se ele perguntou pela mulher no último momento, antes de não poder mais falar.

Pouco depois, por volta das duas horas, Henrique VIII morreu. A causa da morte do rei é incerta. Nos dois dias seguintes após a morte do rei o seu corpo permaneceu intacto na câmara. Sua morte foi mantida em segredo, tanto que suas refeições ainda estavam sendo trazidas para seus aposentos. O aviso público da morte do soberano foi retardado por dois dias por ordem do Conselho Privado, como parte de sua política de garantir o poder e agarrar-se a ele. Época em que Hertford também achou necessário acertar outro aspecto do passado do rei: ‘Se os senhores ainda não avisaram Lady Ana de Cleves da morte do rei Henrique, seria bom que mandassem com urgência uma pessoa para fazer isso“. Foi só na manhã de 31 de janeiro que o chanceler Wriothesley anunciou ao parlamento que Henrique VIII estava morto. No mesmo dia, o jovem Eduardo VI foi levado para a Torre e proclamado rei.

Uma enorme urna, contendo o rei morto, ficou cinco dias no centro da Casa Real, enquanto a capela era preparada para seu cadafalco. Este foi instalado no dia 2 de fevereiro e cercado por oitenta velas.

Henry VIII and His Six Wives (1972)O rei Henrique designara St. George’s Windsor para ser enterrado em 1517, para ‘quando o altíssimo Deus o chamasse deste mundo'; na ocasião, ele ainda estava casado com a primeira mulher, que ele previra que iria compartilhar do seu túmulo. Em 1529, o rei mandou começar a adaptar para seu uso o espetacular túmulo encomendado por Cardeal Wolsey a artífices italianos, para o qual o cardeal reservava uma capela que não era usada. ‘Corpo que, quando a alma tiver partido, deverá (…) assim voltar à vil matéria que foi feito“, fosse colocado junto aos ossos de ‘nossa verdadeira e adorada esposa rainha Jane“. Ele também mencionou que teria preferido um enterro simples, mas que isso era impossível, devido ao ‘espaço e a dignidade que Deus nos deu’.

Assim, o túmulo da rainha Jane, que ficava a meio caminho entre o altar principal e os bancos do coro, foi reaberto depois de nove anos. No dia 16 de fevereiro, após um sermão pelo bispo Gardiner sobre o texto ‘Bendito aqueles que morreram em nome do Senhor’, o enorme caixão do rei foi arriado para dentro dele ‘bem apertado’, com a ajuda de 16 guardas do paço, de altura e força excepcionais. Os guardas quebraram as hastes de suas lanças sobre o túmulo, para indicar que o emprego deles com um determinado rei acabara, enquanto o rei de armas da Jarreteira proclamava o rei Eduardo ‘em voz alta’ e todos os que estavam perto bradaram ‘Vive le noble Roy Edward’. Depois, trombetas soaram ‘com grande melodia e coragem, para alívio de todos os que estavam presentes’.

Entre os espectadores que foram confortados pela trombeta não estava o rei de 9 anos de idade. De acordo com o costume, ele não estava presente, mas permanecera em Londres. A rainha Catarina, porém, lá estava e presenciou o processo pelo qual o corpo de seu marido foi cuidadosamente arriado por 16 gigantes para dentro do túmulo de sua terceira esposa.

atual túmulo de Henrique VIII e Jane SeymourDevido ao mau planejamento, falta de fundo e outros acontecimentos lamentáveis, o monumental túmulo de Henrique VIII nunca foi concluído. Pedaços dele ainda estão espalhados pela Inglaterra, enquanto outros foram destruídos ou nunca construídos. Eduardo VI tentou terminar o monumento, mas não foi capaz em seu curto reinado. Maria I nada fez, mas Elizabeth criou um comitê para examinar e ver o que precisava ser feito para completá-lo. No entanto, mais tarde em seu reinado o plano foi abandonado. Durante a Guerra Civil Inglesa o que foi concluído do monumento foi desmontado e vendido. Segundo Oliver Cromwell, a maior parte do material fino do túmulo foi vendido ou derretido,assim como as efígies de Henrique e Jane. Só foi no reinado de William IV, no século 19, que a placa de mármore negro marcando o local de descanso do rei Henrique VIII, Jane Seymour, Charles I e uma criança da rainha Anne foi feito.

Esboço dos caixões de Charles I, Henrique VIII e Jane Seymour feito por Alfred Young Nutt em 1888. Segundo um relato de 1813, o cofre foi aberto e descobriram que o caixão de Charles estava aberto no topo e havia um buraco no caixão de Henrique VIII com seu crânio aparentemente visível.

Esboço dos caixões de Charles I, Henrique VIII e Jane Seymour feito por Alfred Young Nutt em 1888. Segundo um relato de 1813, o cofre foi aberto e descobriram que o caixão de Charles estava aberto no topo e havia um buraco no caixão de Henrique VIII com seu crânio aparentemente visível.

Existem alguns rumores sobre o funeral de Henrique VIII e os momentos antes de sua morte. Ele foi talvez o rei mais famoso da história inglesa, e por isso não é nenhuma surpresa que nos livros e internet algumas coisas estranhas ou piegas se apegaram à sua morte. Explicarei aqui os três mais famosos.

“Os monges, monges, monges!

Henrique VIII rompeu com Roma e tornou-se chefe da Igreja da Inglaterra dissolvendo os monastérios. O monges, frades e freiras fiéis ao Papa perderam suas casas e tiveram que ficar na rua. Aqueles que desafiaram o rei e negaram a supremacia real foram torturados e mortos. Será que o rei se arrependeu no final? Supostamente suas últimas palavras foram “Monges! Monges! Monges!“. A principal fontes deste rumor parece ser de Agnes Strickland, uma poeta do século 19º que escreveu os oito volumes de Lives of the Queens of England from the Norman Conquest, e Lives of the Queens of Scotland e English Princesses. Strickland escreve: “O rei foi afligido com horrores visionários na hora de sua partida, ele olhou selvagemente para os lugares mais sombrios de sua câmara, murmurando “Monges! Monges! Monges!“. Quando se trata de visões que Henrique tenha tido de homens encapuzados furiosos em um canto na sua câmara, isso mais parece uma tentativa de justiça poética. O mais provável é que Henrique não tenha lamentado nada.

Gritava por Jane Seymour.

Outra história é que, enquanto morria, Henrique VIII gritava para sua terceira esposa, morta a muito tempo, Jane Seymour. Se ele realmente amava Jane mais do que suas outras cinco esposas (para não mencionar as amantes) é melhor deixar isso por conta dos roteiristas. Mas uma coisa parece certa: Henrique VIII não chorou por sua terceira esposa; não existe nenhuma fonte histórica que confirme isso.

E os cães lamberam seu sangue.

Esta deve ser a história mais macabra de todas em relação a morte de Henrique. O cadáver do rei foi transportado em um caixão de chumbo de Westminster para Windsor, em uma procissão que durou dois dias. Na metade da procissão, o caixão foi alojado em Syon Abbey, uma das abadias mais prestigiadas da Inglaterra. Isso é fato, mas o resto é suspeito. Por causa de um acidente ou apenas o peso indiscutível do monarca, o caixão de Henrique VIII pesava bem mais de 300 quilos. De acordo com essa história, supostamente houve um vazamento na noite, de sangue ou ‘matéria pútrida’ que caiu no chão. Quando os homens chegaram na parte da manhã, um cão vadio foi visto lambendo o caixão. Gilbert Burnet é a principal fonte para a história do vazamento do caixão. Um historiador, ao elogiar o livro de Burnet receou que “uma grande dose de erros foi encontrado e, sem dúvida, com a imperfeição e inexatidão geral das transcrições em que seu trabalho foi fundamentada deu origem a uma série de erros”. Uma das contribuições mais conhecidas de Burnet para os Tudor é a história da ‘égua Flanders‘. Antonia Fraser escreve que Burnet tinha ‘nenhuma referência contemporânea para apoiá-lo’, em seu livro As Seis Mulheres de Henrique VIII.Henrique VIII, por Joos van Cleve, em 1535. Embora no século 16º não se drenava completamente o sangue para o embalsamento e que médicos dizem que é possível que os fluídos escorram 17 dias após a morte, a história contada por Burnet dá a impressão que este era simplesmente um caso que merecia uma boa história. Possivelmente, ninguém perturbou o caixão do indomável Henrique VIII, nem mesmo fantasmas.

Um dos primeiros biógrafos de Henrique VIII, William Thomas, declarou que o rei:

“Foi sem dúvida o homem mais excepcional que viveu no seu tempo. Eu não digo isso para fazer dele um deus, nem em todos os seus atos eu direi que ele foi um santo. Ele fez muitas coisas más, mas não como um tirano cruel ou um hipócrita. Eu não sei quantas histórias terei que ler para achar alguém igual a ele.”

Bibliografia:
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
BILYEAU, Nancy. ‘The Death of Henry VIII: Demolishing the Myths‘. Acesso em 28 de Janeiro de 2013.
GRUENINGER, Natalie. ‘The Death of Henry VIII‘. Acesso em 28 de Janeiro de 2013.
Henry VIII’s Tomb‘. Acesso em 28 de Janeiro de 2013.

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4 comentários em “A morte de Henrique VIII

  1. Adorei essa matéria!!! Quanto mais leio sobre os Tudor, mais fascinada fico por Henrirque VIII.

  2. Essa criança de Anne é Ana Bolena ou outra rainha?

    • É de outra rainha, Anne, Rainha da Grã-Bretanha (1665-1714). Ela teve de 17 a 19 gestações, e nenhum de seus filhos sobreviveram à infância.

  3. E a vida é um ciclo que se repete continuamente

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